quarta-feira, 18 de agosto de 2010

17.

17 anos hoje. Desde que ele foi dormir e nunca mais acordou. Eu me lembro de me sentar ao lado dele na varanda de casa e ficar olhando o movimento da rua. Meu avô me ensinou a falar palavrão em árabe, a gostar de comer laranja lima, assim, partida ao meio, pra apertar e tomar o caldinho. Quando eu nasci, ele construiu um balanço no quintal de casa. Pra mim. Ele me ensinou a amarrar o cadarço do tênis, a ver as horas em relógio de ponteiro. Me ensinou a pegar arame, fazer um círculo na ponta, envolver cuidadosamente com barbante e voilá: nenhuma bolha de sabão seria maior ou mais perfeita que a minha.

Meu avô tinha medo de morrer, e chorava de saudades dos já haviam partido. Gostava de andar em pé, se equilibrando no espaço estreito do muro que separava a minha casa da dele. Minha mãe gritava, preocupada que ele caísse, e com o mau exemplo. Ele apenas sorria. E descia. Meu avô inventava músicas com vocabulário duvidoso e rimas improváveis. Hoje, 17 anos depois, sei uma por uma. Às vezes eu cantarolo dentro da minha cabeça, e me dou conta da falta de sentido das composições. É minha vez de sorrir. Meu avô não fazia a menor questão de fazer sentido. A gente fazia vaquinhas espetando palitos em batatas, riscava o chão com pedaços quebrados de tijolos. Ele adorava fazer graça com as outras crianças da rua. Pegava aquelas lagartas grandes e verdes, colocava no chão, chamava todo mundo pra assistir. Tomava distância, dava uma corridinha e pulava em cima, esmagando com o sapato. Era gosma de lagarta pra todo lado. Ele cortava rabo de lagartixa pra gente ver ele pular, sozinho no chão, desconectado do corpo, até parar. Ele me ensinou a fazer armadilha pra pegar passarinho. Nunca consegui pegar um pardal que fosse. Alias, os nomes dos passarinhos, boa parte deles, meu avô me ensinou. E eu dificilmente me engano. Quando chegava setembro e a cidade era invadida pelas cigarras, nós saíamos em busca das cascas abandonadas, e eu levava as carcaças pra casa. Meu avô tinha uma coisa com sementes. Me ensinou a pegar os caroços das mangas do quintal e secar no sol. Depois a gente saía pelo bairro, pela cidade, plantando mangueiras.
Hoje, 17 anos. Sempre que eu ando a pé na cidade siderúrgica e vejo um pé de manga plantado em local público, eu sei que foi ele. E eu sorrio. De novo e de novo. Hoje as mangueiras que meu avô plantou estão grandes, e têm raízes fortes, já dão frutos. Toda mangueira, ali, só existe por causa dele.
Meu avô teve uma morte tranqüila. Dormiu e não acordou. Eu me lembro de correr para o quarto dele quando a noticia chegou, naquela madrugada fria de agosto. Ele sorria. Meu avô morreu sorrindo.

5 comentários:

juliamorena disse...

:~~~ ele tá presente nas melhores histórias da sua infancia. sem q posts não tem classificação (nem devem ter) mas adorei muito esse.

tippi hedren disse...

ai, tô toda emocionada aqui.

Delma Paz disse...

Linda homenagem Ç. Me emocionei com seu relato tão cheio de amor e ternura. As lembranças destes momentos lindos sempre estarão na memória.
Beijinhos e bom final de semana

Delma
www.buterflies.com.br/blog

Leiliane Fontenele disse...

Essa coisa de avô é cpmplicada, leio a sua saudade e vejo a minha!
Que bom que vc teve um avô tão bom quanto o meu!

Nane
daleiliane@blogspot.com

Ge disse...

me identifiquei tanto com teu blog e as coisas que você escreve, ou como fala do que te acontece.

no meu, escrevi um post sobre minha avó também. li o seu e lembrei do meu: http://tem-que-ser.blogspot.com/2010/08/sobre-leveza.html

beijo!