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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Da vida como ela é. Da vida como ela tem sido.

eu sei que a gente vive a vida falando das maravilhas de ser solteira, e livre, e poder fazer o que quiser, com quem quiser. e se gabar de ter ficado com os meninos mais bonitos da festa, e de ter continuado saindo com um deles, o mais legal, o mais divertido, o mais interessante.

e parecer bem resolvida, bonita, interessante, inteligente, essas coisas todas que todo mundo acha que é bonito parecer. e saber que eu sou, de fato, muito legal. porque eu não pareço: eu sou.

e tudo se esvai num telefonema que não vem depois do date que terminou com o menino bonito na sua casa. a segurança, o sorriso, a sensação de dominar o mundo.

porque - sim - é muito legal ser solteira, e livre, e poder fazer o que quiser. e, sim, no caminho existem milhares de caras bonitos. mas tudo isso, no fim das contas, se resume a buscar um menino, um só, que não abandone a gente no dia seguinte.

sábado, 27 de novembro de 2010

ainda.

quanto tempo é permitido sofrer? qual é o prazo socialmente aceitável?

não estou falando do let go. o let go já veio. eu já entendi que nem sempre a gente consegue manter por perto aqueles de quem a gente gosta. que os estragos são feitos, e uma coisa piora a outra, e muitas das vezes a gente perde o controle. e tudo fica pesado demais para ser simplesmente apagado, esquecido. 

não estou falando do move on, do achar novas pessoas, fazer novas coisas, descobrir outros caminhos.

estou falando da perda, propriamente dita. da saudade que fica quando a raiva vai embora, quando você consegue dissociar as coisas ruins que ouviu do que é verdade, porque sabe que só foi machucada porque também machucou.

estou falando da saudade que te toma de assalto quando você vê a pessoa passeando distraída na rua. Quando vê um livro e sente o impulso de comprar, porque sabe que ela gostaria de ganhar de presente. Ou quando vê um desenho, ou uma fotografia, ou um filme. a cada vez que surge um momento desses, um impulso quase inconsciente traz de volta as lembranças, ainda tão vivas.

eu morro de novo, e de novo.

e o tempo destrói tudo. o tempo desembaça a vista. hoje eu vejo que houve um momento em que eu poderia ter trazido ele de volta. ali, parado na minha frente, sorrindo. eu me assustei. e reagi com medo, depois com gritos, com todas as coisas que andavam engasgadas junto com o choro. minha reação foi a mais verdadeira possível. naquele momento. se hoje a mesma cena ocorresse, se eu fosse surpreendida com um sorriso, talvez eu sorrisse de volta. e eu sei que eu ia desabar, e chorar tudo aquilo que eu já chorei em dobro. e olhar com raiva, depois com pena de estarmos os dois nessa situação, depois com alguma ternura, dessas que sobram, mesmo quando todo o resto desanda. e abraçar com força, pra segurar e não deixar ir embora. porque o último abraço que eu dei selou o fim. e eu sabia, no momento em que soltei os meus braços e recuei.

todo o resto desandou. e no outro dia eu pensei. e se eu abrisse os vidros do carro e gritasse o nome dele? e sorrisse? e tentasse olhar nos olhos, buscar aquela ligação que um dia existiu, tão firme, tão limpa. e eu perguntasse. até quando? até quando a gente vai passar por isso assim, de longe? sem falar, sem saber? evitando cada encontro, evitando cada troca de olhares? será que existe uma outra forma de passar por isso?

eu sei que eu fui machucada. eu ainda estou. eu ainda choro até dormir. ainda ontem eu não conseguia sair do carro, porque o mundo desabou de repente, assim, sem aviso. faltaram as forças, mesmo. porque eu sinto saudades. porque eu sei que eu machuquei de volta.

e não interessa que eu não tivesse a intenção. eu machuquei. e toda a raiva que veio, veio porque eu fugi. eu me afastei. eu cortei. eu me arrependo. eu não sei como eu poderia ter feito diferente, não sei mesmo. eu briguei com as armas que eu tinha. eu tinha um coração partido, eu tinha esse monte de frases que me escapavam quase que sem filtro, eu tinha esse espaço. eu escrevi a minha dor. eu machuquei. eu não queria machucar. 

e se eu abaixasse os vidros do carro e falasse? como a gente conserta? tem conserto? eu tento perdoar. todo dia. não tem mais raiva. tem tristeza, tem saudade, tem esses momentos que eu dividiria com ele, e que ficam aqui, guardados, trancados. eu não substituo pessoas. o espaço que era dele é dele, ainda. aqui do lado. no outro canto do sofá. do outro lado da rua. do outro lado da mesa. é dele.

como a gente conserta o que não tem conserto?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

música explicando saudade



:~

Sympathetic Character
(Alanis Morissette)

I was afraid you'd hit me if I'd spoken up.
I was afraid of your physical strength.
I was afraid you'd hit below the belt.
I was afraid of your sucker punch.
I was afraid of your reducing me,
I was afraid of your alcohol breath.
I was afraid of your complete disregard for me.
I was afraid of your temper,
I was afraid of handles being flown off.
I was afraid of holes being punched into walls.
I was afraid of your testosterone.

I have as much rage as you have.
I have as much pain as you do.
I've lived as much hell as you have.
And I've kept mine bubbling under for you.

You were my best friend
You were my lover.
You were my mentor.
You were my brother.
You were my partner.
You were my teacher.
You were my very own sympathetic character.


I was afraid of verbal daggers.
I was afraid of the calm before the storm.
I was afraid of for my own bones.
I was afraid of your seduction.
I was afraid of your coercion.
I was afraid of your rejection.
I was afraid of your intimidation.
I was afraid of your punishment.
I was afraid of your icy silences.
I was afraid of your volume.
I was afraid of your manipulation.
I was afraid of your explosions.

I have as much rage as you have.
I have as much pain as you do.
I've lived as much hell as you have.
And I've kept mine bubbling under for you. 


You were my best friend
You were my lover.
You were my mentor.
You were my brother.
You were my partner.
You were my teacher.
You were my very own sympathetic character. 


You were my keeper.
You were my anchor.
You were my family.
You were my savior.
And therein lay the issue.
And therein lay the problem.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

aniversário, ainda.


Passei a semana fazendo mimimi. COMOASSIÃM não teve surpresa no meu aniversário? Que espécie de amigues eu tenho? 

A menina coordenadora comete um erro e eu que pago o pato? E fico sem bolo? E me sinto desprestigiada?

It's my fucking birthday!

Os co-workers, sem graça, explicavam que o furo da coordenadora tinha estragado tudo. E que, poxa, mas o andar inteiro cantou parabéns pra você, etc e tal.

Pra começar, o parabéns coletivo foi um lapso, puxado pelo menino da nova zelândia quando a chefa loura resolveu passar na minha mesa para me dar um abraço. Não é divertido ter, sei lá, uma multidão, cantando parabéns pra você. Eu queria bolo.
 
De chocolate.

sábado, 26 de junho de 2010

sábado

unhas roídas, sofá roxo, rufus wainwright de roupão cantando poses e tocando piano em algum especial da tv a cabo, sms com queridos da firma, café, pão com geléia, coca cola, pijama, episódios de how i met your mother, samuca no telefone, depois daniel, internet, internet, julinha no gtalk, mais pessoas bloqueadas para sempre no facebook. cena do chris o'donnel morrendo nos trilhos do trem em tomates verdes fritos, twitter, queer as folk no youtube, saudades do brian kinney e do justin. aquilo sim que era amor. banho de horas, blogs de maquiagem, leve desespero com o tempo que não passa.

it will be over soon, it will be over soon, it will be over soon.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Eu preciso dizer que, nesses últimos dias antes das tão sonhadas férias, eu operei a 17% da minha capacidade. É verdade. Um sono absurdo tomou conta da minha pessoa, os dias foram longas esperas pelo passar das horas. E eu produzi pouco, quase nada. Tem dias que eu faço mais, tem dias que eu faço menos. Eu tenho feito menos, ultimamente, muito menos do que eu poderia. A verdade é que eu estou bem cansada mesmo, um cansaço estranho, que nem é por falta de sono não, é falta de, sei lá, brilho. A gente tem uma brincadeira no trabalho que imita uma propaganda, de algum carro offroad, onde as pessoas precisam ter mais contato com a natureza. E tem uma planta num canto, e as pessoas passam e ficam muito impressionadas com a planta. E o comercial termina com a fala de alguma pessoa, quase que em choque, exclamando “Há vida neste vaso!”. E sempre que alguém está animado com algum projeto, rola a mesma brincadeira, do “Há vida neste vaso!”. E não há vida neste vaso, no meu. Eu sou uma espécie da planta, seca, no canto da parede, desmaiada, aborrecida, contando o passar do tempo e fingindo que não estou ali. Isso me deixa um pouco frustrada, porque afinal de contas, eu tenho tanto a oferecer, e sou tão absurdamente cheia de idéias, e até mesmo acima da média, sem falsa modéstia. Mas eu fico ali, operando a 17% da minha capacidade, porque só me exigem mais ou menos 20%. E esses 17% são a minha forma de me rebelar contra o sistema, dizendo que se é pouco o que querem, então eu faço menos ainda. Rá. Quero ver quem ganha esse joguinho.

Se me quisessem a 100%, eu daria 110%. Mas é assim mesmo. As pessoas têm o que merecem. Não mais do que isso.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Hoje, só hoje, eu gostaria que as horas voassem. Hoje não, amanhã e depois de amanhã também. E aí, segunda, terça e quarta. Porque quinta é o meu primeiro dia das minhas primeiras férias, as primeiras merecidas com o trabalho, as primeiras depois de um ano e meio muito cheio de informação, as primeiras depois que o MBA dos infernos acabou e as primeiras que eu realmente quero e preciso. E eu fiz milhões de planos, dos mais divertidos aos menos, com passagens por dentistas, oftalmologistas e afins, com extreme makeover agendado no salão, dietas programadas. Estou baixando todas as séries que o tempo me negou nesse período, a última temporada de ER, House, Greys Anatomy e tantas outras. Não vou conseguir ver nem metade, mas eu quero, quero mesmo, preciso.

Vou me aboletar na casa dos meus pais, onde as refeições seguem horários e são equilibradas. Onde eu até encontro chocolates, onde é mais frio, e há quem lave/passe minhas roupas. Vou cortar a comunicação com os demais, nada de MSN, nada de Orkut. Mentira. Mas seria bem bom. Vou esquecer da existência de alguns infelizes que só fazem me dar nos nervos ultimamente. Pensar na vida e assistir temporadas antigas de Seinfeld e Friends. Colocar a locadora em dia, assistir Marcia Goldschmith (ou whatever), Gaspareto e novelas mexicanas no meio da tarde. Malhação. Vou ver quem diabos é Romulo Arantes Junior, ou filho, ou sobrinho, o tal do moleque que pegou os travestis há um tempo atrás. Vou rever meus escritos do francês, assistir filmes sem legenda, retomar contatos importantes, por assim dizer. Atualizar meu currículo porque, sabe como é, nunca se sabe. E eu ando bem cansada mesmo. Das pessoas, em geral, de uma boa parte delas.

Vou visitar a Madame na selva de pedra e fazer um esforço sobre-humano pra não reclamar da vida. Vou tentar não gastar dinheiros, mas vou trocar o som do carro. Gravar CDs novos, essas coisas. Reassistir Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças. Adoro tanto esse filme. Talvez eu pare pra ver uns clássicos, mas eu nem acho que vai dar tempo. Eu podia fazer sabe o que? Ir numa vidente, ou coisa que o valha. Saber um pouco do futuro, acreditar em previsões felizes, fazer as unhas. Tomar banhos de espuma, assistir um pouco mais de televisão, descobrir mais alguns blogs legais pra ler. Ler os históricos de blogs recém descobertos. Ler no sol. Comprar bombons de banana que só vendem no shopping da cidade siderúrgica. Pra depois morrer de culpa por ter comido tantos, e em seguida me desculpar porque eu estou de férias, e eu mereço esses mimos. Eu realmente mereço.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Prestem muita atenção na história que eu vou contar. É história triste, já adianto. Não que ela faça alguma diferença na vida de qualquer um que se disponha a ler este post, mas ela afeta a mim, sempre, pobrezinha, há, deixa ver, hum, 24 anos, com uma piora significativa há 21 anos.

Toda a paz que eu tive na minha vida acabou ainda antes dos 4 anos de idade, quando nasceu minha irmã. Eu não tinha pedido irmãos. Eu gostava de ser filha única. E ela veio, e eu fui convencida de que dividir os meus brinquedos com a minha irmãzinha era legal. Não era.

Tentei barganhar, pedi que fosse um menino, ao menos. Tarde demais, o bebê era menina. Ganhei uma boneca, daquelas de corpo de pano e cabeça, braços e pernas de plástico, sem cabelo, vestida de azul. Uma boneca menino, prêmio de consolação. Dei a ela o nome de Eduardo, e a vida seguiu. O tempo passou e eu ainda queria um irmão. E eu pedi por aquilo que, hoje, viria a se tornar a razão do meu desassossego.

Ele veio morar comigo há coisa de seis meses. Dividam o espaço, meus pais disseram. Ele usa o meu computador, rouba as minhas meias e enche de músicas o meu HD. Tudo bem, imaginava, não posso ser babaca e tomar dele o acesso ao único computador da casa, que por acaso é meu. E ele espalhou fotos, baixou programas. Diz que a música que eu ouço é um lixo, pede carona e usa meu shampoo de pitanga. Desaparece com a caixinha de fio dental, come o meu queijo cottage e faz a barba na pia. Tudo bem. Irmão, se não atrapalhar a vida da gente, é porque veio com defeito de fabricação.

Eu comprei uma escova de dentes novinha, lilás, pra substituir a minha. E ele me acorda assim: “Tata, joguei a minha escova velha fora e peguei aquela nova que estava na sua gaveta.” A minha escova, cuidadosamente escolhida, pronta para a substituição de praxe de cada 3 meses, o que seria exatamente aquela manhã. A manhã em que ele resolveu trocar a dele. Ele me chama de Tata, o larápio insensível.

Mas o pior é uma fixação absurda e inexplicável que o indivíduo tem com pilhas. Desde pequeno, ele rouba pilhas das gavetas, dos aparelhinhos espalhados pela casa, dos controles remotos. Um dia, meses atrás, depois de uma semana cansativa, num sábado de tarde, eu me sento no sofá e pego um dos muitos controles da casa, o que comanda a net. Achei o controle remoto leve, estranhei, e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ele estava com um imenso vazio onde deveriam estar as pilhas A3, que eu mesma reponho sempre. Nada. Ele estava viajando. Comprei mais pilhas, passei um senhor esporro, reclamei com pai, mãe, toda e qualquer autoridade que me veio à mente no desespero, ameacei tirar a mesada, o acesso ao computador, etc. E ele jurou que não faria de novo, mas é que por coincidência as pilhas do mp3 player dele eram daquele tamanho e o aparelhinho consumia mais energia que qualquer outra coisa. Eu fico me perguntando que espécie de lógica é essa que leva um homem feito com 21 anos nas costas achar que as pilhas de um controle remoto não estão em uso. Elas não estavam na gaveta, pelamordedeus, estavam no controle. O controle com pilhas serve para passar comandos à televisão. Que serve, por sua vez, para ser assistida, e tem especial utilidade em casa de Madame Ç.

Achei que ele tinha aprendido a lição, relaxei. Comprei pilhas novas, repus. Dois meses depois foi o controle do DVD Player que ficou leve. Ele, o irmão mau-elemento, novamente em viagem. Repetiu-se o ritual com o telefonema, os gritos, as ameaças, as reclamações com a mãe, depois com o pai, que garantiram um outro esporro daqueles. Comprei pilhas, repus. Ele nega até a morte a autoria desse delito específico. Mas moramos eu e ele, e eu sei que eu não fui. Whatever. Larápio.

E então, neste último fim de semana, novamente no sábado, pego eu o controle remoto da net, aquele vítima do primeiro roubo. Aperto os botões e nada acontece. Ué?! Leve ele não está. Viro o controle, abro a tampinha do compartimento de pilhas. Há pilhas. Pilhas velhas, descombinadas, inseridas – PASMEM – ao contrário. Tipo o positivo com o negativo. Tem um desenhinho em alto relevo explicando a posição, e ainda assim ele recolocou as pilhas ao contrário. Óbvio que elas não funcionavam. As pilhas que EU tinha comprado e reposto eram iguais, tipo da mesma marca e, importante, estavam na posição correta. Essas pilhas foram para o mp3 player do maluco, e ele me garantiu que elas também já acabaram. Liguei para o meu pai, uma última esperança pra que um outro esporro viesse e eu pudesse me sentir, de alguma forma, vingada. Meu pai, tadinho, aproveitou que o assunto veio à tona e disse que era pra eu avisar ao ladrãozinho que ele devolvesse as pilhas recarregáveis roubadas lá de casa no último fim de semana. E eu me sinto absolutamente desamparada, helpless, nas mãos de um maníaco ladrão de pilhas.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Quarta feira. Há tempos atrás esse seria um dia normal, comum, apenas ali, recheando a semana. Um dia sem graça, simplório, tacanho, medíocre e sem personalidade. Acontece. Mas aí chegou o estagiário insolente por aqui, provando por A mais B sua teoria de que as quartas feiras são dias amaldiçoados, do demo, que apenas existem para ferrar com a vida dos desavisados. E ele começou a me mostrar que as coisas bizarras, chatas pra caramba, sempre dão um jeito de acontecer, não na terça, não na quinta, mas na quarta. Sempre na quarta.

Eu fiquei doente numa quarta. Meu MBA dos infernos é sempre quarta e hoje, especialmente, é dia de uma prova absolutamente imbecil. Alguns feriados acontecem na quarta, só para que não seja possível emendar. Eu acordo, me arrumo, ponho minha sapatilha de bolinhas e, ao escovar os dentes antes de sair, sinto o pé meio gelado. Olho para baixo, estranho, meu pés estão molhados. O chão está molhado. A água pingava de dentro do armarinho da pia, ok, abro a porta e uma pequena cachoeira se forma, límpida. A fonte? O cano da pia, que o zelador do prédio - claramente mais bem informado que eu – não tardou a me apresentar. “É o rabicho, dona madame Ç. Só comprar outro que nóis troca pra sinhora.” Rabicho. Ok. Rabicho pra mim é diminutivo de rabo, um fiapinho no fim da coluna dorsal dos mamíferos. Mas, aparentemente, também se trata do cano maldito que pinga sem parar, agora, nesse exato momento, lá na pia do meu banheiro. Quarta feira, senhores.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Às vezes, a vontade é gritar. Um grito único, isolado, pra quebrar o marasmo dos que fingem trabalhar tranquilamente. Um grito que sacuda tudo. Que assuste, que faça o coração disparar. Que dê medo, que provoque risos, ainda que contidos. Que provoque perguntas, mas não aquelas clássicas, do tipo “por que ela gritou?”. Que provoque engulhos, que todos se dêem conta de que estão quietos, e que deveriam gritar. Pra assustar, pra sacudir, tirar as coisas do estado normal. Os gritos deveriam ser todos no sentido “Por que eu não gritei antes?”. Todos deveriam gritar, mas ninguém parece se dar conta disso. Será que essas pessoas são felizes? Será que não querem chutar tudo para o alto, ou pelo menos gritar? De dor, de tédio, de desespero mesmo. Um grito daqueles, meio chorando, com força. Só pra mostrar que estão vivos, meu deus. Será que estão vivos? Se estão, por que não gritam? Será que essas pessoas todas são felizes? Fazendo o que fazem, dia após dia? Eu, definitivamente, quero gritar.

E permaneço calada, e finjo trabalhar tranquilamente.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Mais do mesmo. Eu falo demais. Sempre. E reclamo demais. E sou ríspida, apesar da fofura que se estabeleceu nas últimas semanas, que eu não entendo e que já se faz notar, e rende piadas engraçadinhas. Eu acho que concordo. Talvez sim. Talvez eu esteja ficando simpática, e fofa, como não se cansam de me acusar. Eu tiro meus anéis e coloco as luvas. Faz frio. As mãos continuam geladas, mesmo dentro da camada grossa de lã. Sinto os pelinhos do braço arrepiarem, as pontas dos dedos frias, os olhos querendo fechar. Eu queria estar em casa. Quietinha. Com as luzes apagadas, no máximo um abajur. A tv jogando imagens sem sentido, um livro no canto, as revistas japonesas emprestadas, que só agora descobri que abrem pelo lado de trás. Tantas cores. Queria folheá-las sem culpa, sem pressa. A tv ligada, passando alguma coisa sem sentido, qualquer coisa. Meu caderno azul e umas canetas coloridas, pra fazer uns rabiscos, copiar falas de filmes, fazer listas de tudo o que ainda não vi.

Não é de férias que eu estou falando. É de tempo, de distância. Vontade de ficar sozinha. Não por dois ou três dias, até quando eu quisesse. Sem culpa, sem telefonemas. Pijamas o dia todo. Seriados. Sem relógios, sem despertadores, sem celular. Sem campainha, interfone ou qualquer outro tipo de apito. Nada que me perturbe, nada que me distraia de mim mesma.

Água quente, comida quente. Almofadas. Os gritos estão abafados e eu fiquei fofa.

quarta-feira, 7 de março de 2007

"Você está virando uma pessoa fofinha." Essa foi a última que eu ouvi, depois de, num súbito desabafo daqueles bem desesperançosos no meio de uma quarta-feira à tarde, no meio de um trabalho chato e que parece não ter fim.

Eu tento explicar para as pessoas que quando eu tenho uma tarefa que não me estimula, é muito sofrimento mesmo, porque a minha atenção se dispersa e eu passo coisas desimportantes na frente. Eu resmungo, eu levanto, busco água, ligo a música no headphone, vou até a máquina mágica de doces do sétimo andar. Sento na cadeira e quase morro.

E ninguém entende que para uma dda diagnosticada é mais difícil ainda se concentrar em algo que é propriamente impossível de gerar concentração. E eu quase morro. E resmungo, e tento achar metáforas que expliquem para os outros seres viventes, conformadamente fazendo a sua parte, que aquilo ali quase me desespera. Que eu quero gritar, mas que as forças se esvaem. E que a vida escorre de mim, e que eu não posso fazer nada a respeito. Sou uma plantinha sem água, eu digo. E suspiro. E digo que estou murchando, que estou secando e que estou morrendo. Porque eu estou.

E as pessoas dizem que eu pareço feliz, principalmente em uma quarta feira, mas que estou com cara de ursinho carinhoso, com os olhos semicerrados, em câmera meio lenta. E dizem que quando eu uso as metáforas para explicar meu desespero, que eu estou ficando fofinha. Porque eu digo coisas fofinhas, porque isso é muito desestimulante demais. Mas isso só quer dizer que esta batalha está sendo vencida pelos arquivos que vêm da frança, e que se acumulam. E que eu preciso olhar, e adaptar os textos, e corrigir os absurdos. E que me fazem querer morrer. E então, quase morta, eu fico fofinha.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Ontem foi um dia estranho. Um dia normal, mas com revelações estranhas. Revelações óbvias, nada demais, eu já sabia, rá, mas é sempre uma surpresa ouvir.

Sabe quando você tem certeza de que alguém não gosta de você? Na maioria das vezes, você também não gosta da pessoa, e a especulação nem chega a ter algum valor. É algo que você imagina, não é real. Mundo das idéias. E, você pensa, se for real, dane-se, e daí. Não ligo. Mas aí, de supetão, como um raio, chega alguém e diz. Aquela pessoa (ou pessoas, ou whatever) me disse que não gosta de você. E isso joga o mundo das idéias no mundo real, e isso vira algo com o qual é preciso lidar.

Eu não lido bem com rejeição. Tenho uma tendência doentia a levar tudo para o lado pessoal, mesmo. E sei que não deveria me importar com o que os outros dizem ou pensam de mim, imagine. Mas a verdade é que eu me importo mais do que deveria e muito mais do que gostaria. E a tal revelação lá de cima acabou me deixando meio paranóica. O que eles disseram, eu perguntei. Nada, foi a resposta. Não posso dizer. Junto ao "não posso dizer", esboçou-se um arremedo de sorriso, de algo engraçado e que, pior, a pessoa que portava a notícia, concordava. Senão não ria, simples assim. Fiquei infernizando, perguntando o que exatamente foi dito, por quem, em que contexto. Mas o que gritava dentro da minha cabeça era outra questão, ainda mais importante: "como alguém pode não gostar de mim?". Eu me acho legal, sabe? Engraçada, essas coisas. Espirituosa. E eu entro em uma loucura de achar que é obrigação das pessoas me acharem legal. Mesmo aquelas que EU não gosto. Sei lá. Acho que Hitler devia pensar assim.

Então, fiquei com raiva. Raiva das pessoas que não gostam de mim (porque eu não sou adorável coisa nenhuma, porque eu reclamo delas também, porque boa parte da minha ironia e do meu sarcasmo são direcionados a elas em horário comercial), e raiva da pessoa que vem me contar uma coisa dessas. Porque eu era mais feliz apenas especulando, e eu não quero saber que alguém disse com todas as letras que não gosta de mim. E porque eu não consegui arrancar mais nada, nenhuma informação relevante dessa pessoa, e porque eu acho que ela não deveria - sendo minha amiga, veja bem - circular com tanta desenvoltura entre dois grupos tão opostos, e porque ultimamente eu tenho juntado peças de um quebra-cabeças que eu não gosto de ver montado. Not pretty. Not pretty at all.

E então, voltamos à Madame Ç paranóica em versão Big Brother, aquela que sai da casa com 93% de rejeição. E eu não sei até que ponto eu fui prejudicada com a edição. O resultado dessa confusão toda dentro da minha cabeça foram três sonhos intranqüilos. No primeiro, eu era ODIADA pela minha turma de mba. Eu chegava em uma mesa onde estavam todos sentados e não era nem um pouco bem vinda. Eles ficavam cochichando entre si algo como "o que ela está fazendo aqui, quem chamou essa garota", etc. No segundo sonho, um macaquinho entrava na minha casa, me perseguia, pulava em mim e me mordia no pescoço. Mordia doído, uma dor que me acompanhou no terceiro sonho e que me fez olhar no espelho, de manhã, pra ver se tinha alguma marca. Pois bem. Eu tentava matar o macaco com um cabo de vassoura, mas ele era mesmo impossível. No terceiro sonho, algo típico de momentos de stress, a nova versão do sonho "pelada na escola". Eu sonhava que perdia o meu carro, que eu não achava ele onde eu tinha parado, ou não sabia bem onde eu tinha estacionado. Ficava lá, com a chave na mão, procurando um carro que não existia. Sem chão.

Daí, cheguei à brilhante conclusão de que talvez seja a hora de eu voltar a encarar o psycho. O analista, aquele a quem eu dei alta há menos de um ano atrás.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Andaram dizendo que meus posts estão chatos. Fiquei profundamente magoada, ferida de morte mesmo. Não que eu nutra inseguranças com relação a eles, não mesmo. Se tem algo que eu sei fazer, é escrever. É meu trabalho no mundo real. Eu já faço textos esperando aprovação o dia inteiro, o tempo todo. Escrevo esperando um "sim", ou um "não", ou correções. Se eu escrevesse mal, não estaria trabalhando.

Eu leio blogs há anos. Alguns posts são excelentes, alguns são médios, alguns totalmente desinteressantes. Jamais eu comentei um post, de qualquer pessoa que fosse, criticando, dizendo gostei ou não gostei. Eu comento o assunto, caso tenha algo a dizer. Senão, valeu a visita, no comments at all.

E eu não quero começar a escrever esperando a aprovação de ninguém. Já basta isso em horário comercial, sério. Mesmo. Então, se eu for chata, ignorem. Se eu não fizer um texto absurdamente legal ou divertido, ignorem. Não é concurso. Não é avaliação, não é competição entre os meus textos e os da outra garota. Eu adoro os textos da outra garota, muito mesmo. Odiaria competir com eles.

E eu já fiz o momento tréplica uma vez, criticando a crítica do Mister P, um dia, lá no histórico. Era fácil criticar o engraçadinho, ele tem telhado de vidro. Posso brigar e espernear com qualquer um, discutir. Pra mim, nenhuma discussão nunca está acabada. Eu sempre tenho algo a dizer, preciso ter a palavra final. É minha. Posso ser realmente irritante com isso, deixar as pessoas malucas, só porque preciso mesmo convencê-las de que eu estou certa. Mas talvez eu não esteja, e alguns textos sejam chatos. Outros não.

Se quiserem me atacar, digam que eu sou chata, não os textos. Anotem a dica. Digam que eu irrito, que minha companhia incomoda, que meus quadris não têm jeito, não importa quantos quilos eu perca. Falem que eu pareço forçada, que ando desengonçada, que me visto mal e minha postura é péssima. Que eu falo muito palavrão, sou de lua, reclamo de tudo. Digam que eu não aceito críticas. Que eu não aceito ser contrariada, que não vejo quando erro, que sou orgulhosa, péssima pessoa. Que eu desperdiço água, incomodo os vizinhos, ignoro limites. Digam que eu maltrato golfinhos e mato cabrinhas bebê em troca de bolsas deslumbrantes. Mas jamais, jamais, maltratem meu textos.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Existe um plano maligno no meu trabalho. Um plano para congelar a redatora. Eles devem pensar que se eu estiver com frio, sei lá, eu posso raciocinar melhor, me concentrar, whatever. Eu reclamo há meses. Ninguém faz nada, nada. Uns riem, meio que concordando, uns fingem que eu nem estou ali. Meus dedos ficam roxos, eu juro. A saída de ar fica em cima da minha cabeça e, enquanto as demais meninas podem desfilar as suas blusas sem mangas e vestidinhos variados, tudo o que me resta é lançar mão dos meus bons e velhos casaquinhos e ficar encapotada.

Então, agora eu trabalho de luvas. Lá fora, o sol queima a mufa dos cariocas, brilha. Pessoas enchem as praias. Dentro da empresa, eu, agasalhada, com luvas e casaquinhos. Reclamando, of course, porque isso eu faço mesmo. Minhas luvas são uma forma de protesto, um protesto silencioso. Atrapalham a digitação, fica até meio ridículo. Fazer o que? Ninguém faz nada. Hoje, meu co-worker, sensibilizado com minha situação, me ofereceu o casaco. Só que eu já estava com dois casacos, e mais as luvas. Então eu disse que o que eu queria, o que eu queria mesmo, é que consertassem o ar, sei lá, fizessem com que ele fosse distribuído de forma igualitária por todas aquelas pessoas. Ele riu, meio sarcástico, e disse: "Cara, tipo assim, desiste. ELES NÃO VÃO FAZER ISSO". Me restou continuar ali, semi-congelada, e reforçar a dica para que - se olharem pra mim e eu estiver meio parada, meio quieta, me cutuquem. Hipotermia é coisa séria.

Pensei alto que precisava de luvas novas, porque aquelas de lã, simples, não estavam cumprindo direito o papel de evitar a gangrena. Pensei alto que queria luvas de pele. Pêlo de carneiro, whatever. Pensei alto. Em seguida, lembrei da Julia, ao meu lado, protetora-mór dos golfinhos, adoradora de bichinhos indefesos. Ela falou que eu não podia pensar assim. Julia, a voraz devoradora de granola, come carne, eu descobri, mas só porque precisa. Ela não sente um prazer imenso ao saber que as vaquinhas morreram para que a gente pudesse se deliciar em um rodízio ou coisa que o valha. Julia ponderou que no caso das luvas, era bom para os carneirinhos, porque ajudava eles a não passar calor. Tipo, eu não estou nem aí para o calor que os carneirinhos passam. Eu estou preocupada com o frio, com as pontas dos meus dedos arroxeadas, isso é que me preocupa. E ela disse, novamente, que eu maltratava golfinhos, e resolveu incluir na mesma categoria as baleias. Eu maltrato baleias, basicamente.

Falei que eu tinha uma certa antipatia por baleias, porque tinha aquela que engolia o pinóquio e o Gepetto, e que tinha dentes que pareciam cerdas de escova de dente. Baleia Jubarte, ela disse. Julia entende de dentição de baleias. E completou dizendo que tinha sido muito bem feito ela engolir o pinóquio, que era mentiroso, e o Gepetto, que era um velho safado. Pedófilo, ela disse. Ele fez um boneco e queria que virasse um menino, só pra ele. Pra mim, vilã é mesmo a baleia.